Concha de la Torre

Concha de la Torre
Partillhar

“Criar e formar um ser humano é um trabalho do mais complexo para o qual não nos preparamos como devíamos. Temos 9 meses de gravidez que deveriam ser a “universidade” para se ter um filho”.

Colaboradora de programas de rádio e televisão, autora de vários livros sobre a estimulação infantil e participante habitual em congressos internacionais, Concha de la Torre, conta-nos as suas opiniões sobre o mundo da psicologia infantil, depois de 30 anos de experiência.

TPP: Vamos ao início, quando é que decidiu estudar psicologia?

CT: Eu nasci psicóloga. Desde pequena que me reunia com as minhas amigas e o que eu mais gostava era que me contassem os seus problemas e eu tentava arranjar soluções. O que mais me motivava era ver que fazia coisas pelas minhas amigas, ajudava-as … Não podia estudar outra coisa. A única coisa que queria era saber mais de psicologia, aprender mais, sempre gostei de aprender. Terminado o curso, comecei no serviço de psiquiatria infantil da Paz, ali estive a trabalhar com os melhores especialistas de psicologia infantil. Embora tenha passado momentos muito duros porque trabalhei com crianças terminais, a experiência serviu-me para compreender a importância de se comunicar com elas, têm a sua pequena lógica que é necessária para entender e para saber o que se passa.

Cefaleias: as famosas dores de cabeça na gravidez

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Durante os nove meses de gestação são muito comuns as dores de cabeça, sobretudo no primeiro trimestre e até ao final, motivadas principalmente pelas alterações hormonais e pelo aumento do volume de sangue na grávida. Se o paracetamol não é suficiente para aliviar a dor, pode experimentar compressas frias, um duche, técnicas de relaxamento …

TPP: Acredita que, desde os começos até agora, a valorização dos psicólogos por parte da sociedade evolui?

CT: Sim, evidentemente. No ano de 1973 na Paz não havia psicólogos, dizer que era psicóloga era visto de uma maneira um tanto ou quanto estranha. Mas quando explicavas o trabalho que desenvolvias, assim, vendo a sua importância, aceitavam-te. Aqueles primeiros trabalhos de observação das crianças em isolamento mostrou que, a partir daquele momento, certos ingressos neste centro realizavam-se com uma mãe e hoje em dia qualquer ingresso se faz com a mãe porque percebeu-se a sua importância na evolução posterior da criança. No entanto, existem centros onde não deixam que as mães vejam os seus filhos recém-nascidos por mais de trinta minutos por dia. Isso não faz mais do que estragar a recuperação do bebé que é o mais importante e, por outro lado. o vínculo, também fundamental, que se deve estabelecer entre a criança e a mãe. Todavia, acredito que existe uma certa ignorância a esse respeito.

O que me parece demencial é o que se está a passar neste momento com a polémica sobre a inclusão da psicologia como uma especialidade sanitária. O psicólogo teve o seu espaço, a sua tarefa, o seu trabalho e os seus resultados e de facto se hoje podemos desenvolver o trabalho que está considerado é graças a todos os psicólogos que têm trabalhado em silêncio nos últimos 30 anos. Foi muito cruel a falta de reconhecimento, e eu acredito que isto tem que se resolver. Nós estamos muito bem preparados, os psicólogos têm uma formação … todos os que seguimos esta carreira, seguimo-lo vocacionalmente. O psicólogo é um humanista que trata de encontrar a forma de ajudar as pessoas e é uma barbaridade o facto de não se reconhecer a nossa importância na sociedade. Para mim, o psicólogo tem o seu espaço como o psiquiatra e o médico têm os seus.

TPP: Como é que uma psicóloga infantil educa os seus filhos?

CT: Eu tenho duas meninas, já são maiores e têm os seus próprios filhos. Mas, para criá-las estudei as correntes psicológicas que existiam no mundo dos finais dos anos 60.

A escola norte-americana acabava de descobrir que era importante que fossemos permissivos, que o peito era exigido, que as crianças não se traumatizavam e levavam as correntes do tipo freudiano às formas mais extremas. Mais tarde descobriu-se que aquelas crianças desenvolveram comportamentos rebeldes e, inclusivo, psicopatias anti-sociais. Nos estudos para ver o porquê de se passar isto, chega-se à conclusão de que as crianças necessitam de limites. Por sua vez, a escola alemã defendia que se tinha de manter um rigor bastante estrito na educação das crianças: pontualidade nas refeições, os utensílios das crianças, as rotinas … e tem-se uns resultados muito bons numas áreas. Já a corrente francesa era uma mistura de várias escolas e reforçava o desenvolvimento da motricidade infantil. Havia autores fantásticos que recolheram informação riquíssima.

Para educar as minhas filhas realizei uma síntese com grande parte das ideias da corrente francesa e alemã. Queria dar o melhor às minhas filhas. A partir das ideias, estabeleci um protocolo de comportamento com normas, limites, estabelecendo um tempo de qualidade com elas, sempre com todo o amor, dando as ordens com muitíssimo carinho e a mensagem verbal passada com cuidado. Esta era a sínteses do protocolo. E a verdade é que o resultado foi muito bom.

TPP: a maioria dos psicólogos infantis afirma que a etapa mais importante no que diz respeito à estimulação infantil vai dos 0 aos 3 anos. No seu programa de estimulação infantil, também é? Como chegou a esta conclusão?

CT: Ao ter trabalhado muito em psicoterapia de adulto e ao chegar a profundidades de etapas muito primárias da vida, encontramos reacções de regressões infantis onde te dás conta que nasceram condutas que mais tarde se desenvolveram como adultos. Por exemplo, uma criança entre os 2 anos e meio e os 3 anos passa pela famosa etapa da negação. Descobriu que é um ser independente, mas com medo de sê-lo. Por um lado quer mostrar a sua independência e por outro sente a necessidade de não ser abandonada nem desentendida. Um vez que sabemos isso, o que vai fazer a criança? Vai ser polémica, desobedecendo às ordens que os seus pais lhe dão. A resposta destes perante a criança desobediente vai em dois ou três caminhos. Um é a imposição, às vezes, com mensagens ameaçantes. A criança percebe este tipo de resposta como tudo o que faça de maneira independente vai ser castigado, vai sempre haver alguém que tenha mais poder que ela. Encontramo-nos com uma criança muito dependente, que depois também será um adulto dependente. Outro exemplo, são os pais muito exigentes que transmitem mensagens subtis: uma frase de aprovação mas com uma constante”pode-se melhorar”. Encontramos estes casos em pessoas com grandes quadros de stress, os seus pais desapareceram desse plano de exigência e agora são eles mesmos que muitas vezes pedem mais do que podem chegar a dar e que assim surgem os problemas de stress. As reacções dos pais na educação dos seus filhos vão marcando a personalidade no futuro.

TPP: Dessa forma, apostava primeiro numa formação de pais?

CT: Isso mesmo. É fundamental dar regras aos pais. Se as vão seguir ou não, não se sabe, mas pelo menos sabem que elas estão ali. Na minha opinião as escolas de pais são muito importantes. Criar um ser humano é um trabalho do mais complexo para o qual não nos preparamos como devíamos. Temos 9 meses de gravidez que deveriam ser a “universidade” para se ter um filho. Formar um critério, unificado entre o pai e a mãe, para criar o seu filho é importantíssimo e, por pressuposto, muito benéfico para a família. É muito importante marcar umas regras a seguir, uma coerência, critérios claros. As mesmas rotinas que temos em casa há que segui-las quando deixamos as crianças com os avós ou com algum familiar. Aí nasce a segurança da criança. Se uma conduta repetida tem a mesma resposta, a criança vai crescer segura e orientada. Daí surge a inteligência emocional. As crianças são um disco rígido onde vamos gravando comportamentos. Sem as regras de comportamento criamos uma criança insegura, que será um adulto inseguro. Com o método DOB o que procuramos é estimular a criança desde a sua parte intelectual, motriz e emocional. Que os pais tenham a oportunidade de desenvolver um adulto integrado em todos os aspectos da sua vida. A base de informar os pais que estes passem um tempo de qualidade com a criança, que saibam escolher a hora de brincar com eles, que aprendam que cada jogo tem um fim … assim, os pais sentem-se muito seguros na hora de passar tempo com os seus filhos, segurança que se transmite aos pequenos. Quando os pais vão dar uma ordem têm que fazê-lo com todo o afecto mas sabendo as marcas e os limites. Desenvolver uma criança que brinca, que ri, que aprende, etc.

Já passaram 40 anos desde que começaram a aplicar-se os primeiros programas de estimulação, são gerações inteiras de adultos felizes. Temos muita experiência para saber que tem resultados positivos, mas a tudo isto o que hoje juntamos é o trabalho de investigação em que situações que se criaram nestas primeiras etapas da vida passam à sua factura posterior.

TPP: Hoje em dia, como todos sabemos, os pais cada vez têm menos tempo para estar com os seus filhos, a mãe integrou-se no mercado laboral … Que conselhos daria a estes pais?

CT: A chave é o tempo de qualidade. Estar com os seus filhos não significa estar com eles a ver televisão, trata-se de brincar com eles, falar com eles, a comunicação é a base de qualquer vínculo. Se quando o seu filho tem 3 anos lhe pergunta pelos seus companheiros de escola e se o ouve com atenção e interesse, dando importância às suas ideias e aos seus sentimentos, quando tiver 15 o que conta é o mesmo. Por exemplo, se a criança chega uma tarde e lhe diz “O João bateu-me” e você lhes diz “despacha-te, temos de ir para a cama”, para a próxima vez quando tiver um problema a criança não lhe vai contar. Se der meia hora ao seu filho para lhe fazer perguntas sobre o seu dia e o ouvir com atenção, vai torna-se na sua confidente e companheira directo ao mesmo tempo que desenvolve a personalidade comunicativa da criança. Acima de tudo, as crianças precisam de um ambiente social e de uma família que as rodeie.

Definitivamente é muito diferente o tempo com os seus filhos, o tempo de qualidade com os seus filhos. É fundamental para conhecer a criança, para perceber a sua lógica, que nós nos introduzamos na sua cabeça. Há que ser firmes e marcar os limites e pautas, desde o carinho, o amor e a compreensão. Por detrás de cada criança está o pai e a mãe, e por detrás destes está uma sociedade determinada. Defendendo este tempo de qualidade entre pais e filhos e esta necessária comunicação, o que quero é fazer uma prevenção de transtornos emocionais, ou seja, fazer adultos felizes.


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