Entrevista a uma mãe portuguesa na Noruega - Inês Pato

Entrevista a uma mãe portuguesa na Noruega - Inês Pato
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Se a Noruega é o melhor pais para ser mãe...fomos falar com uma Super Mãer Lusa nas terras norueguesas...

A nova imagem do pai

A nova imagem do pai

Até há bem pouco tempo o pai representava a figura da autoridade na família: a sua presença afectiva não era considerada indispensável nem necessária na educação das crianças. Hoje em dia, sabemos que o pai exerce uma influência muito positiva na formação da personalidade do filho, desde a sua mais tenra idade.

TPP: Há quanto tempo estão na Noruega?

Inês: Estamos na Noruega desde Outubro de 2009 (o Manuel tem 2 anos e 4 meses (Abril 2008).
 
TPP:Educar os filhos não é uma tarefa fácil. Educar um filho num país estrangeiro
é ainda mais complicado, ou até pelo contrário?
 
Inês: Penso que não existem enormes disparidades, porque os valores que lhe incutimos são
universais. A grande diferença é não termos a família por perto. Aqui somos só nós os
três. Não há visitas familiares ao fim-de-semana, nem quem possa tomar conta dele
de quando em vez. A educação provém exclusivamente da nossa parte e, logo a seguir
(mas com a distância que se pressupõe) do infantário. A agenda é, ainda mais, planeada
em volta do Manuel.
 
 
TPP: Fazem questão de incutir os valores portugueses e até mesmo a língua na
educação da criança?
 
Inês: Quanto aos valores portugueses, é natural que assimile naturalmente a cultura dos pais:
fazemos questão de lhe transmitir o que de bom têm os nossos valores. Em relação
às coisas menos boas, preferimos que prevaleçam os valores incutidos aqui (respeito
pelo ambiente, pela igualdade entre sexos, civismo, ligação próxima à natureza...).
Em relação à língua, entre nós, pais, e a criança só se fala em português, até porque
é a única língua em que somos realmente fluentes. Em casa temos livros tanto em
norueguês como em português e vê tanto desenhos animados numa língua como noutra.
No entanto, notamos que o Manuel começa a falar mais norueguês, muito por causa do
infantário. Acresce que, temos muitos amigos de outras nacionalidades com os quais
acabamos sempre por falar em inglês. Resta acrescentar, neste ponto, que o Manuel
frequenta um infantário para filhos de estudantes e que, por isso, tem tantos meninos
noruegueses como estrangeiros na situação do Manuel. No infantário fazem questão de
falar sobre a origem de cada menino e de se partilhar as diferentes culturas. Festeja-se
até o dia das Nações Unidas, no qual todos os pais são convidados para um pequeno-
almoço em que cada um deve levar algo típico do próprio país.
 
 
TPP: Vêm muitas vezes a Portugal? Como é que se organizam para que a família
acompanhe o crescimento da criança?
 
Inês: Os períodos de férias (Verão e Natal) são passados em Portugal para que os avós, outros
familiares e amigos possam conviver com a criança o máximo de tempo possível. Os
avós já vieram à Noruega e são esperadas mais visitas no futuro, tanto de familiares
como de amigos.
 
 
TPP: No que diz respeito aos cuidados essenciais em relação à criança, como
os serviços hospitalares ou médico de família, têm algumas desvantagens por
serem estrangeiros? Sentem diferenças dos serviços de Saúde portugueses?
 
Inês: Enquanto residentes regularizados, o Manuel tem os mesmos direitos das crianças
norueguesas: até aos 6 ou 7 anos as consultas são gratuitas, bem como as vacinas
recomendadas. Aqui temos a impressão de haver maior “descontracção” no
acompanhamento do crescimento das crianças: por exemplo, a consulta dos 24 meses
não é necessariamente feita por um médico e o espaço de tempo entre cada consulta é
maior.
 
 
TPP : E na educação … a criança frequenta alguma instituição de ensino. Como
é que foi o processo de adaptação à escola? O processo de educação é muito
diferente do nosso?
 
Inês: O Manuel frequenta um infantário onde participam crianças entre os 10 meses e os 6
anos.
O Manuel teve uma adaptação óptima à escola. Penso que não poderia ter corrido
melhor. No entanto, estou certa de que se seria muito diferente caso esta alteração na
sua vida tivesse ocorrido numa idade em que já falasse ou se recordasse de onde estava
antes. Assim sendo, a mudança não foi sequer sentida e tudo aconteceu naturalmente.
As diferenças que me parecem maiores entre um infantário e outro têm que ver desde
logo com o facto de misturarem as idades. No infantário do Manuel existem quatro
salas e em cada uma existem meninos com idades compreendidas entre o mínimo e
o máximo possível (dez meses a seis anos). A princípio esta misturada toda dá uma
ideia de caos eminente, mas a verdade é que funciona muito bem: cria nos mais velhos
o sentimento de inclusão e capacidade de ajudar os mais novos, enquanto os mais
novos tentam acompanhar os mais velhos acabando por aprender muito com eles.
À mesa sentam-se todos juntos em mesa de tamanho normal e não baixa, como era o
caso do infantário em Portugal. No fim da refeição cada um leva o seu prato e copo. O
lanche é trazido de casa diariamente numa lancheira.
Outra grande diferença tem que ver com ao facto de todos os dias saírem para brincar
na rua. Faça chuva, sol, neve, até -15º (para os mais velhos, -10º para os mais novos) os
meninos saem para brincar. À quarta-feira é dia de passeio e todos saem do infantário.
São habituais as visitas à biblioteca para se requisitar os livros que eles próprios
escolhem.
A última diferença que encontro é a ligação próxima entre pais e infantário. Os pais são
convidados em várias ocasiões especiais para vir ao infantário, mas são diariamente
bem-vindos a estar mais tempo no infantário tanto quando os deixam como quando
os vão buscar. Não são raras as vezes que vejo os pais a tomar café de manhã com
os assistentes ou educadores enquanto os filhos tomam um pequeno-almoço mais
demorado que não se conseguiu dar em casa.
AH, não posso deixar de apontar o facto de em cada salinha existir pelo menos um
homem a trabalhar. Faz-se questão de ter diferentes géneros e culturas para que
as crianças compreendam, desde cedo, que não existem profissões ou actividades
exclusivamente para mulheres ou homens.
 
 
 
TPP: Portugal e a Noruega são países um tanto ou quanto diferentes. Quais são
as principais dificuldades e facilidades que encontram ao viverem num país
estrangeiro com uma criança tão pequena?
 
Inês: Nós mudamo-nos para a Noruega numa situação um bocadinho peculiar. O pai veio
fazer mestrado e, por isso, a papelada toda que se adivinha com uma transformação
destas, ainda mais com o filho e mulher atrás, foi resolvida com algum desembaraço.
Acresce que a casa em que vivemos é da faculdade, portanto foi mais uma maçada
essencial com que não nos tivemos de ocupar. Para além disso, eu (mãe) já cá tinha
estudado antes e falo bastante bem a língua e tínhamos já alguns amigos noruegueses
em Oslo com quem podíamos contar no caso de surgir alguma complicação.
Parece-me que a maior dificuldade prendia-se com a possibilidade de o Manuel não
se integrar no infantário e eu não encontrar trabalho. Felizmente o Manuel adaptou-se
muitíssimo bem e eu, 3 semanas depois de chegar estava a trabalhar. A verdade é que correu
tudo muito bem. Não tivemos sequer tempo de nos preocupar, pouco tempo depois de
chegarmos já tínhamos uma quase-rotina familiar.
 
 
TPP: Alguma vez ponderaram abandonar a Noruega e voltarem para Portugal por
causa da criança?
 
Inês: Não, nunca nos passou tal coisa pela cabeça. No entanto, não deixo de pensar
como seria bom e reconfortante ter os avós por perto. Não só pela ajuda prática que
poderiam dar como a influência que é sempre positiva para a criança e vice-versa.
 
 
TPP: A criança estranha quando está em Portugal ou é um processo natural?
 
Inês: Desde que cá estamos fomos duas vezes a Portugal. Dez dias no natal e o mês de Julho.
Em ambas as vezes, o Manuel reagiu com naturalidade. Falamos pelo telefone várias
vezes por semana com os avós e já marcámos também alguns encontros pela internet
para que nos possamos ver.
 
 
TPP: São cada vez mais as pessoas que emigram à procura de melhores condições.
Que conselhos podem dar a esses jovens casais que, tal como vocês, embarcaram
nesta aventura com um bebé nos braços?
 
Inês: Parece-me que o maior conselho é preparar o que se possa antes de mudarem
efectivamente porque o mais provável é alguma coisa não correr como se espera. Tentar
manter a família o mais unida possível. E, claro, fazer por se integrar, mantendo-se
disponível e receptível a outras formas de pensar e de viver.
 
Muito Obrigado e Felicidades a Todos!

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